Leitores

Além e aquém da península Ibérica

Além fronteiras é tudo menos ibérico

O indivíduo elaborou modernidade
Mas ficou infecundo nas relações da cidade
Criou tesouros de cultura arquitectónica
Mas ficou com a garganta afónica
Espalhou tesouros orçamentais
E esganou os laços comportamentais

É utilitário, maquinal e escolástico
Não possui a seiva louca do elástico
É abatido quanto a lâmina de aço
Possui a razão além do seu próprio espaço
Vive num salão desenxovalhado e comodista
É filosofo maior, arrogante artista.

Aquém é da Europa, apêndice periférico

O indivíduo ocultou o modernismo
Explodiu na relação banhado de arcaísmo
Criou rios de risos e olhares altruístas
Cadernos de letras fixas nacionalistas
Bombeou o torso de cores medievais
E dançou lábias nos morenos arraiais

É expansivo, original e cabalista
Possui o mais sólido ocidente bairrista
É trigueiro, quanto o avoengo era celta
Tem uma língua trivial afiada e esbelta
Vive no adro da igreja, oferta abraços pios
É fado menor, mas sabe aceitar desafios

Antanho Esteve Calado

O muro dos sorrisos

Aquém eu sorrio, mas os meus sorrisos batem no muro
e querem voltar para a bodega de onde saíram.

Além estão os destinatários, com outras bocas
que me enviam sorrisos, que batem no muro
e querem voltar para as bodegas de onde saíram.

Em cima do muro, está um casal cativado
que recolhe todos os sorrisos
e os semeia em ambos lados.

Antanho Esteve Calado

Pontuações

Há outras gentes perto de mim,
que não sei quem são.

Brincam.
Choramingam.
Amam.
E talvez morram...

Morrerão?!
Porque sempre ali estão...
Então...
Serão sempre os mesmos?

Não sei por que ali estão!
Se acolhem o mesmo vento, o mesmo sol, a mesma idade
Que eu.
E não sei quem são...

Humanos são. Pois correm como eu
quando a chuva abusa.

A sociedade hodierna
Contém; e, cunha conforme avança
E eu nada vejo...
Que gentes quase iguais
Perto de mim
E não sei quem são!...

De inicio ao fim, nada soube deles
E eles souberam!
Que eu existi?

Antanho Esteve Calado

Deixem que ele seja

Recolham as vossas estórias - laudas pré-pós-armadas.

Enterrem-nas, nos mais profundo da vossa lembrança – que lá fiquem geladas.

Deixem respirar a ideia da terra homem.

Espalhem nos mares que enlouqueceram,
os pergaminhos engomados de ouro velho.

Recolham o sangue puro que derreteram
e,
refaçam os desfeitos, esvaziados de atrevimento,
de aragem, de selo.
Lavem todas as cores maculadas
e,
repintem os corpos cozidos no sal da vossa cupidez.

Deixem que tudo seja cor, cor e cor
e,
se mais não houvera, ainda cor.
Aquela cor natural que designa o homem encharcado de liberdade.

Não cor de cor, nem cor de terra.
Não cor de raça, mas cor da animalidade magoada pelos peitos estocados pelas vossas bandeiras.

Não fico pasmado diante dos vossos feitos
nem me interessam as vossas fronteiras.

- Gosto ou desgosto da vossa cultura
Adoro ou detesto a vossa língua
Mais nunca morrerei de míngua
Nem mais aceitarei qualquer tortura –

Recolham os vossos feitos – estou disposto a vos absolver
Soltem o homem agora, não mais tarde,
agora.

Deixando-o viver sem cor, na cor que ele desejar,
na terra dele.

Deixem que ele seja...

Desfaçam estórias e geografias.

Antanho Esteve Calado

Tratos e maltratos

Mercadejei o meu coirão nos mais diversos cantos do mundo

Proletário indistinto e vagabundo
Minguado na escudela e nos relatórios
No estaleiro, na granja, nos escritórios

Vendi o meu suor, como a prostituta vende o seu favor
Da Europa ocidental até à Europa maior
Da Ásia superior até à África de cor

Foi no meu pais onde fui mais maltratado
Descontos salariais guardados em bolso furado
Levam-me a estancar o meu desejo de aposentação

Terei talvez merecido descanso quando estiver no caixão

Antanho Esteve Calado

Ao homem da sua origem

Se te estorvar a invenção, como a raça
E nela não encontrares que tu, em migalhas
Escreve ao mandão, com veio de rechaça
Arguindo, porque te ofereceu só palhas

Qual que for o teu colorido, é sumptuoso
Não calcules os confins onde te espalhas
Que seja branco ou negro, fica orgulhoso
Mas tem cuidado, com alguns canalhas

Que te querem rifar. com pinças de mutismo
Se não trilhares, as pistas que traçaram
Que vão do estiolo, ao puro nacionalismo

Regenera sempre, a palavra humanidade
Guarda o nome que teus pais exclamaram
Antes do país e da raça, apenas liberdade

Antanho Esteve Calado

Ensopado de pátrias com carnes à borla

Resolutos e cobardes dialogaram com armas
flamejaram estalidos nos arraiais de ninguém

Rugidos
fanfarronices
insultos e debandadas

Maiorais altaneiros dessecam o suor da partida

Dizimada a frente
um montão na retaguarda
rouba o último espaço de recuo
triste escudo

A bandeira carregada de gritos não esvoaça
o estafeta estrangula o juramento
descamba

As vidas ardem
como castanhas assanhadas
nas clareiras
feias lareiras de homens lenho

De repente
um armistício invade a contenda

As pátrias empataram
os homens perderam

A pomba da paz arrastou a única asa válida
e o fumo do charuto cauterizou os defuntos

Cobardes e resolutos dialogaram sem armas

Que vale o choro da mãe
se a pátria caçoa.

Antanho Esteve Calado

A cada um a sua telha!...

Teilhard de Chardin, diz!…
Somos envelopes espirituais

Eu digo!…
Somos animais sofisticados

Teilhard de Chardin, diz!…

Não!...
Somos envelopes carnais

Eu digo!…
Somos figurinos desenhados

Se ele disser o seu adágio, eu direi o seu contrário
Se ele disser o seu anverso, eu direi o meu reverso
Nenhum de nós levará
algum beneficio moral ou erário

Mas os dois ganharemos, no anfibológico controverso

Antanho Esteve Calado

Antevisão

Nas ruas imaginárias duma cidade inexistente
Pisando as pedras velhas dum passado outrora crente
Jovens deuses deambulam no futuro da sua existência
Vestidos de homens respiram a decadência

Nas águas turvadas por essências irreais
Imagens pardas dum passado de mortais
Deslizam ocas e riem sem piedade
Gritando ao vento mensagens de saudade

Na noite eterna sem crepúsculo e sem aurora
Passeiam almas inocentes que outrora
Vidas plenas felizes ou desgraçadas
Se transformaram em fantasmas às manadas

Agarradas às árvores calcinadas tais espectros em paisagem de sonho
Vozes primitivamente quentes perdem-se no horizonte medonho
O próprio vento que se quisera de saudade
Uiva de dor nas encostas da cidade

Antanho Esteve Calado

A besta acordou o homem

O homem levanta a mão prestes a abater-se sobre a mulher
Esta olha a mão pesada, nela nada sabe ler, suplica consenso
Será ferimento ou morte? O que o gesto vai trazer
A violência abate-se e a interrogação fica em suspenso

Nenhum lamento sai da sua garganta, só um ríctus de tristeza e um esgar de estupor
E o sangue que brota da boca outrora bela e desejada
Os olhos tacanhos requerem uma pausa ao agressor
Mas o bruto repele o mendigar da sua amada

A mulher sente um frio triste de criança, abandonada pela defesa
Num gesto natural anicha-se no chão na postura do embrião
Renuncia no canto, que pensa ser o seio matricial, aos trunfos que lhe deve a natureza
E abandona-se ao furor daquele que lhe ganhara o coração

As mãos aproximam-se como tenazes, para extraírem do rosto os restos de vida
A mulher já não é, senão uma criatura regressiva
No olhar vazio de futuros, desfilam extractos dos tempos de ternura
Natureza morta, cobaia de artistas adormecidos, em tela caída
Braços dormentes, que cobrem ainda uma cabeleira expressiva
Boca despida de gritos, de lábios derribados pela tortura...

As pancadas caiem cadenciadas, o esposo é um animal feroz
Até que o cérebro da infeliz mais não possa resistir
A algazarra retira-se, poisa-se no silêncio dos rameiros
Uma música medonha sai das entranhas do algoz
As bestas agoiram nos restolhos, o tempo suspende o seu porvir
E as flores retraem-se medrosas, murcham-se nos canteiros

O homem apagou a união sagrada, os estatutos sociais já não valem nada
Os contratos arderam na exaltação da animalidade ressurgida
Os sociólogos fazem resumos, os poetas fogem pela calada
E as seitas filosofadas fazem analises e fotografam a vida destruída

O homem olha as mãos assassinas outrora ninhos de afago
Mãos que riscaram o amor num quadro desolado de agrura
De gestos irracionais que expungiram uma vida num trago
Que nasceram da razão e acabaram na loucura

O homem não mais será bem-vindo à cidade da tolerância
Para seu castigo verá no fundo do seu poiso, estúpido e nauseabundo
O filme dum amor terno nascido em bela infância
Até que a misericórdia o retire deste mundo

Antanho Esteve Calado